Andarilhos do Alvorecer. 9.
- 10 de out. de 2017
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Meses haviam se passado e uma boa parte dos nossos haviam sido capazes de encontrar a força escondida dentro deles, como Benji havia chamado.
TJ agora conseguia arremessar pedras mentalmente, sem sequer precisar carregar mais seu estilingue, algo que Benji havia dito só ser capaz por ele ser uma criança com determinação de ferro, algo que permitira ao garoto se gabar por semanas. Chegava à ser engraçado.
Para a minha surpresa, até as senhoras Ruth e Smith já eram capazes de se defender. A Sra Ruth era capaz de manipular riachos inteiros, ajudando agora na cozinha com ainda mais entusiasmo. A Sra Smith era capaz de mover a terra sob os nossos pés, diversas vezes demonstrando o quanto a sua determinação em manter seguro o último membro de sua família vivo.
Jeff e Anton por outro lado, assim como eu, pareciam incapazes de fazer qualquer coisa. "É difícil crer quando já se perdeu as esperanças", explicava Benji, mas mesmo assim, não levou muito mais pra que os rapazes abandonassem os treinos e voltassem à afiar suas espadas e flechas.
Eu comecei à ter treinos particulares com Benji, que se negava à desistir de mim. Ele acreditava que eu podia estar encontrando dificuldades em me concentrar devido à pressão dos outros observando e por isso, havíamos começado a nos encontrar na montanha.
- Coloque os braços assim... Mãos para cima.
Estávamos os dois sentados em posição de lótus e ele movia minhas mãos para a posição correta conforme eu suspirava aborrecida.
- Vamos, não é tão ruim.
- Eu me sinto uma idiota esperando um milagre.
- O milagre está dentro de você. Não precisa esperar, é só colocar ele para fora.
- Fácil para você falar, sr. Monge dos Ventos. Não há nenhum milagre em mim.
- Mia...
- Não, Benji! Não há.
Abri os olhos para que pudesse vê-lo e ele me encarava com uma expressão de pena.
- Não adianta me olhar assim! Eu não posso, eu não consigo, não consegui salvar ninguém!
Eu me levantei em um único salto.
- Não quero saber das suas ilusões idiotas de que eu sou algum tipo de super-heroína! A única pessoa que eu daria a minha vida para salvar se foi e agora que essas pessoas estão seguras, eu não poderia me importar menos em ser devorada ou não!
Eu tapei os lábios quando as palavras saíram, mas era tarde demais. Benji me encarava com uma expressão chocada e eu apenas arrumei meu cabelo atrás da orelha e me virei de costas.
- Eu não sou esse símbolo de esperança que você acha que sou. Eu sou apenas um eterno lembrete do meu fracasso e eu estava prestes a me entregar para um mastigador quando TJ me achou. - eu baixei o rosto. - Eu não posso mais lutar, Benji, porque eu já desisti. Eu cumpri minha promessa. Era só isso que queria fazer.
Ele não me seguiu quando me afastei e voltei ao templo, preparando o quarto outra vez.
Deixei uma carta à ser entregue para Anton e Jeff, para que cuidassem dos demais. Que eles eram fortes agora e que todos ficariam bem.
Havia deixado um bilhete de desculpas à Benji, pela forma como havia gritado com ele. E deixado também todo o sistema do meu arco e flechas aprimorado, para que outro alguém pudesse usar.
Deixei as frutas que havia colhido na tarde anterior e quando a lua subiu ao céu, deixei meus aposentos.
Por todo o caminho de volta aos pés da montanha, repetia mentalmente que havia cumprido minha promessa e que agora era minha vez de descansar em paz.
Eu podia ouvir as corujas cantando no ritmo do vento e por um segundo, imaginei que aquele talvez fosse um dia bom para desistir.
Era uma noite tão bonita.
Avistei um grupo de mastigadores um pouco ao leste da montanha e respirei fundo uma vez antes de tomar coragem e assoviar para eles, chamando sua atenção.
Por um segundo, eles pareceram desorientados, quase humanos, sem entender se o assovio era humano ou do próprio vento e por isso, fui forçada à chamá-los de novo.
Quando conseguiram identificar meu corpo em meio às sombras, eles avançaram em minha direção. Pareciam mortos de fome, pensei, correndo assim na direção de qualquer coisa que possa preencher o vazio que sentem dentro deles. Mas a verdade é que mesmo quando eles estavam perto o suficiente, eles não foram capazes de me tocar.
- Mia!!! - a voz que vinha da minha direita era infantil e vívida. - Eu vou te salvar!!
TJ movia a mão direita no ar enquanto a esquerda segurava um saquinho de pedras. As mesmas pedras, eram arremessadas por ele usando sua mente acertavam a cabeça dos mastigadores, chegando à quebrar o crânio daqueles que estavam mais próximos.
Com o grito dele, todas as demais criaturas se voltaram na sua direção e eu me amaldiçoei por deixar o arco para trás.
- TJ, sai daí!
- Não, você já nos salvou demais, agora é minha vez de te salvar!
E o garoto não arredou pé, atirando mais e mais pedras, até que as pedras do saco acabaram e ele teve de começar a tentar usar as que já tinhas atirado, o que levava ainda mais tempo.
E eles eram tantos. Mesmo com meu arco e flechas eu talvez não conseguisse derrubar todos antes que chegassem até o garoto.
Saí correndo na direção dele, o mais rápido que podia.
- TJ!! Saíam de perto dele, seus monstros! - eu conseguia chamar a atenção dos que estavam mais próximos de mim, mas os que estavam mais perto dele ainda não haviam se virado. - EU DISSE, PARA TRÁS!!!
Eu não saberia bem descrever o que aconteceu, até pelo fato de que enquanto tudo acontecia, eu começara a pouco a pouco perder a consciência, mas sei que vi um brilho quase cegante sair de minhas mãos e enquanto eu caía, todos os mastigadores que não haviam virado cinzas, caíam também.
Eu me lembrava de ter tido momentos de estar acordada... Ver TJ me arrastando de volta para dentro do bosque na montanha, depois, ver Benji com ele. Me lembro de sentir alguém me carregando e depois barulho, muito barulho, chiados rápidos que se tornavam cada vez mais ininteligíveis, até a escuridão total.
Era calmo. E quieto. Eu me sentia flutuando no vazio, totalmente sem peso. Era uma sensação boa, embora sufocante.
Eu podia sentir a escuridão me engolindo aos poucos, me fazendo perder a sensação da ponta dos dedos... Dos pés.







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