Atalho: 2
- 3 de mar. de 2016
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Emilly retornou da faculdade pelo casarão naquela tarde, porém, não havia ninguém ali.
O mesmo ocorreu no dia seguinte quando foi para a faculdade, e quando retornou também.
Assim foi pelos próximos dias. E os dias tornaram-se semanas, e as semanas meses.
Não importava que ela se atrasasse para a aula esperando por eles no casarão, ou sequer se ficasse lá até anoitecer... Eles não apareciam mais...
...
Ela estava cansada de esperar, então, sentou-se sobre a raiz da árvore e apoiou-se contra seu tronco, fechando os olhos por alguns segundos. Começou a se questionar se tudo aquilo realmente acontecera ou se ela apenas tinha imaginado aquela manhã...
Mas não podia ser! Não podia! Ela ainda se lembrava do sabor dos lábios de Draco Malfoy!
...
Não se lembrava?
Tinham sabor de... Sabor de...
...
E por um segundo seu cérebro se calou em tristeza. Como ela podia não se lembrar?
Passara a infância toda esperando para descobrir se tudo o que lera ali era real e no final, ela esquecera... Como se houvesse sido algo comum e rotineiro...
Mas não havia nada de comum ou rotineiro naquele encontro da manhã! Nada! Havia bruxos e magia! Não era comum! Era especial... Era mágico... Era... Era real...
...
Era real, não era?
...
Quando acordou de seus pensamentos já estava escuro no casarão e ela sentiu um arrepio forte na coluna. Não deveria estar ali.
Não deveria estar ali até tão tarde... Não deveria estar ali até estar tão escuro...
Não deveria.
Que horas eram? Já teriam os pais chegado em casa?
E foi então que sentiu o corpo congelar. Ao longe vinha um riso embriagado e grosseiro. Seguido de outros.
Não deveria estar ali porque quando o sol se punha, o casarão era visitado por todo tipo de escória da sociedade possível.
Como ela poderia fugir dali?
Não era atlética ou forte...
Mas, era jovem, rápida e conhecia o terreno do casarão como ninguém... Além disso, estava sóbria.
Fechou os olhos para tentar identificar onde o grupo estava.
Pelo volume dos risos, pareciam ainda estar longe, provavelmente bem próximos da saída... Ela teria de ir se escondendo e esperar até que eles se afastassem do portão...
Abriu os olhos e olhou ao redor. Havia ali muitas árvores e se ela conseguisse acertar seu timing conseguiria correr por elas sem ser vista.
Levantou-se num salto e ajeitou melhor a mochila em suas costas. Estava pesada, e agora parecia mais pesada do que nunca... As pernas tremiam e ela temia pelo que poderia lhe acontecer se aqueles homens conseguissem lhe alcançar.
Correu até a primeira árvore o mais rápido que pôde e esperou.
...
Silêncio.
Aparentemente não a haviam visto ainda.
Correu até a próxima e olhou-os de longe, porém, agora o grupo vinha imediatamente naquela direção.
‘Não!’ seu coração acelerou desesperado, olhando em volta enquanto buscava uma saída.
Tentou correr até a próxima árvore, porém, o medo era tão grande que a fez ir de encontro ao chão quando o pé esquerdo ficou preso sob uma raiz. O barulho fez com que os cinco homens olhassem na sua direção.
“Ora, ora...” – o primeiro bêbado parecia ser o que estava mais fora de si, apontando para ela como se pudesse atirar com a ponta de seus dedos. – “Carne nova no pedaço,hic!”.
“São aqueles punks de novo?” – o segundo bêbado agora empunhava sua garrafa vazia como se ela fosse uma faca, quebrando a garrafa contra uma árvore. – “Nunca aprendem a lição!”.
“Hic!” – o terceiro bêbado resolveu olhar antes de meter-se na discussão, porém, ao ver que era uma mulher, seus olhos pareceram brilhar de forma maliciosa. – “É uma garota... Bonita... Nunca tive uma mulher bonita. Minha mulher parece um bacalhau! Hic!”.
“Sua mulher parece um tribufu ao avesso!” – o quarto empunhava a garrafa como se ela fosse um porrete, apontando para Emilly com ela. – “Vem cá, menina... Hic!”.
“Vem com a gente, gatinha, hic!” – o último bêbado era o que tinha um sorriso mais perturbado. O suficiente para fazer lágrimas aparecerem nos olhos de Emilly apenas de olhar para o mesmo. – “Miau, hic!”
Emilly, sentiu a garganta fechar em pânico e dor. Os olhos enchiam-se de lágrimas enquanto ela levantava com uma força saída sabe-se-lá-de-onde e corria na direção contrária da deles, sem ter tempo para pensar ou planejar melhor.
As pernas doíam, ardiam, era como se todos os músculos fossem rasgando-se enquanto ela corria desesperada. As lágrimas rolavam por seu rosto, impedindo que ela enxergasse com clareza. Bateu com o ombro e os braços contra algumas árvores enquanto corria, ouvindo o barulho dos homens correndo atrás dela. Seus risos, gritos e soluços.
Era desesperador. Eles eram muito maiores do que ela, e mesmo bêbados pareciam ser muito mais rápidos.
Ela corria e corria, mas podia ouvir o som deles cada vez mais perto.
‘Estou perdida...’ era tudo que passava por sua cabeça...
Como queria uma varinha... Como queria ser uma bruxa... Ao menos para se defender agora... Ao menos para poder fugir... Ao menos para poder se salvar...
Apertou os olhos com o pensamento. Nunca teria sua varinha. Nunca teria o poder para se defender. Nunca conseguiria se salvar daquela situação... Nunca saíria bem dali... Intacta daquele encontro...
Porém, quando abriu os olhos, duas figuras estavam ali de pé.
‘Já estou morta... Eles já me pegaram... ’ foi seu pensamento, enquanto estendia a mão para tentar alcançar a mão pálida que era estendida em sua direção.
Seus dedos tocaram aquela mão gelada de forma trêmula, segurando-se a ela com força. A mão puxou-a contra o corpo de forma possessiva, fazendo com que o corpo fraco de Emilly se chocasse contra ele. Era forte e duro... Como pedra. Ou talvez fosse ela que estivesse mole demais. Sentiu enquanto braços ainda mais fortes e pesados a abraçavam, segurando-a uma vez que ela parecia à beira de um desmaio.
“Alarte Ascendere!”.
E logo os cinco homens foram lançados ao ar e atirados contra o chão novamente, com um baque surdo.
“Eu acho que eles apagaram... Obliviate!” – Emilly reconheceu a voz de Blaise.
Ela olhou então na direção da voz, podendo identificar o bruxo moreno de feições jovens e, ao menos nesse instante, ferozes.
“Blaise...” – a voz dela saíra tão baixa e fraca que parecia impossível ser audível para os demais, porém, o sorriso de Blaise indicava que ele a havia ouvido.
Ela então começou a raciocinar. Se Blaise estava ali, a mão pálida e máscula a qual ela havia se segurado pertencia a...
E então, ela virou o rosto um pouco mais para o alto, identificando de imediato a expressão aparentemente furiosa de Draco Malfoy.
“Draco...”
“O que você estava pensando?” – o bruxo parecia irado. – “Ficando até tarde nesse mausoléu abandonado sem ter como se defender.” – à cada palavra ele parecia ficar cada vez mais irado. – “Sua trouxa idiota! Já pensou o que poderia ter te acontecido? E o que eu...”.
Emilly sorriu diante da evidente preocupação do bruxo, usando de suas últimas forças para ficar na ponta dos pés e beijá-lo nos lábios mais uma vez, de forma breve, apenas o suficiente para reconhecer que ele era real e para relembrar o sabor de seus lábios.
“Eu senti a sua falta... Eu estava esperando você...” – ela explicou, já de olhos fechados, apoiando a cabeça contra o peito dele de forma suave, apagando aos poucos.
“Ahn...?” – O loiro mais uma vez ficara sem ação diante das ações da trouxa, furioso e ainda assim aliviado. – “Mas, o que...?”.
“Eu acho que ela desmaiou, Draco...” – Blaise aproximava-se, Emilly podia ainda sentí-los ao seu redor. – “Temos de leva-la para casa...”.
Sentiu então enquanto o corpo era levantado do chão pelos mesmos braços fortes que a abraçavam há pouco tempo, porém, quando o corpo foi deitado nos braços de Draco Malfoy, ela não pôde se segurar... Enfim, paz e segurança, então... Acabou por perder a consciência completamente...
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